Redação do Enem: como usar conectivos sem prejudicar a coesão
Entenda o que a competência 4 avalia, como articular parágrafos e períodos e por que a quantidade de conectivos não garante uma boa nota.
Na redação do Enem, conectivos como “porém”, “portanto” e “além disso” ajudam a mostrar como uma ideia se relaciona com outra. Mas incluí-los em todos os períodos não torna automaticamente o texto mais bem escrito. O que importa é que as relações indicadas por essas palavras correspondam ao sentido do argumento e contribuam para a continuidade da discussão.
Esse é o ponto central do alerta apresentado pelo Inep na cartilha de redação: elementos coesivos não devem ser usados de modo artificial ou excessivo apenas para dar a impressão de que o texto está elaborado. A competência 4 considera o conhecimento dos mecanismos linguísticos empregados na construção da argumentação. Portanto, além de escolher conectivos adequados, o participante precisa organizar as ideias, construir períodos compreensíveis e retomar informações sem criar ambiguidades.
A seguir, veja o que é coesão textual, quais aspectos podem ser observados na redação e como revisar o uso dos conectivos. As orientações também ajudam a identificar problemas comuns, como repetir uma expressão sem necessidade, empregar um marcador de oposição onde não há contraste ou começar parágrafos com palavras que não expressam a relação pretendida.
O que a competência 4 avalia na redação do Enem
A competência 4 está relacionada à demonstração de conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para construir a argumentação. Em termos práticos, isso envolve conectar partes do texto para que o leitor consiga acompanhar a linha de raciocínio, perceber como uma informação se liga à seguinte e entender o desenvolvimento dos parágrafos.
Coesão não significa apenas usar conjunções. A articulação pode ocorrer entre palavras, orações, períodos e parágrafos, e também por meio da retomada de pessoas, fatos, conceitos e situações já apresentados. Um texto pode conter muitos conectivos e, ainda assim, parecer fragmentado se as ideias não formarem uma sequência compreensível. Da mesma forma, uma redação não precisa repetir marcadores em cada frase para estabelecer relações claras.
É útil diferenciar coesão e coerência, embora as duas estejam ligadas. A coesão diz respeito aos recursos linguísticos que ajudam a conectar elementos do texto. A coerência está associada à compatibilidade e à organização dos sentidos construídos. Um conectivo pode estar gramaticalmente bem colocado, mas produzir uma relação inadequada para o argumento. Nesse caso, a conexão formal existe, porém o raciocínio pode ficar confuso.
Por exemplo, “por outro lado” costuma indicar contraste ou apresentação de uma perspectiva diferente. Se a frase seguinte apenas acrescenta uma informação que confirma a anterior, o marcador pode induzir o leitor a esperar uma oposição que não aparece. A revisão deve considerar tanto a forma quanto a relação de sentido estabelecida.
O alerta do Inep: mais conectivos não significam mais coesão
Um equívoco comum é acreditar que cada frase precisa começar com uma palavra de ligação. Isso pode levar a uma sequência mecânica: “Além disso”, “Ademais”, “Nesse sentido”, “Dessa forma” e “Portanto” aparecem em intervalos curtos, mesmo quando não acrescentam uma relação necessária. O resultado pode ser repetitivo e artificial, além de deixar o texto mais difícil de ler.
A recomendação da cartilha é usar os elementos coesivos de maneira lógica e adequada, evitando tanto o excesso quanto a utilização artificial. Na prática, um conectivo deve ajudar o leitor a compreender o movimento do raciocínio. Se ele não esclarece se a ideia acrescenta, contrasta, explica, exemplifica ou conclui algo, talvez não seja necessário.
Isso não significa que o estudante deva evitar conectivos. Eles são ferramentas importantes, especialmente em textos argumentativos, nos quais é preciso explicitar relações entre pontos de vista, causas, consequências, exemplos e propostas. A questão está em escolher o recurso que representa a relação real entre as ideias, e não em preencher espaços para cumprir uma suposta obrigação de usar determinada quantidade.
Também não existe uma lista fixa de palavras que, por si só, garanta uma avaliação positiva. Memorizar expressões pode ajudar a ampliar o repertório linguístico, mas a escolha depende do contexto. O mesmo conectivo pode funcionar muito bem em uma frase e ficar deslocado em outra. O efeito depende do que foi dito antes, do que vem depois e do sentido que se quer estabelecer.
Três aspectos que ajudam a construir a coesão
A cartilha do Inep apresenta princípios importantes para pensar a organização do texto: a estruturação dos parágrafos, a estruturação dos períodos e a referenciação. Eles se complementam. Um parágrafo precisa desenvolver uma ideia com continuidade; os períodos devem organizar relações entre orações; e a referenciação permite recuperar elementos que já apareceram sem repetir tudo integralmente.
1. Estruturação dos parágrafos
Um parágrafo pode ser entendido como uma unidade organizada em torno de uma ideia principal, à qual se ligam ideias secundárias. Em uma redação dissertativo-argumentativa, o desenvolvimento pode recorrer a comparação, relação de causa e consequência, exemplificação ou detalhamento, entre outras possibilidades. O importante é que as informações cumpram uma função reconhecível e se relacionem com o argumento central.
Imagine que um parágrafo apresente uma dificuldade social e, em seguida, explique um fator que contribui para sua permanência. A segunda parte precisa desenvolver a primeira, não mudar repentinamente de assunto. Essa articulação pode ficar evidente pela ordem das informações e por expressões de causa, explicação ou consequência. O conectivo ajuda, mas não substitui o desenvolvimento do argumento.
Também deve haver articulação entre um parágrafo e outro. Um novo parágrafo pode aprofundar a discussão, apresentar outro aspecto do problema ou encaminhar uma consequência. Quando a mudança de parágrafo parece desconectada do que veio antes, o leitor pode não entender por que aquele ponto foi introduzido. Antes de acrescentar uma expressão de transição, vale identificar qual é a relação entre as duas partes.
Uma pergunta simples ajuda nessa revisão: “O que este parágrafo acrescenta ao anterior?”. Se a resposta for que ele apresenta uma causa, um efeito, uma ressalva, um exemplo ou outro argumento, essa relação deve aparecer de maneira compreensível. Às vezes, a própria organização das frases já deixa a ligação clara. Em outras situações, uma expressão curta pode orientar a leitura.
2. Estruturação dos períodos
Os períodos da redação podem reunir duas ou mais orações para expressar relações como causa e consequência, contraste, temporalidade, comparação ou conclusão. Essa possibilidade permite desenvolver ideias de forma articulada, mas períodos muito extensos e cheios de encaixes podem dificultar a compreensão. A prioridade deve ser construir uma frase em que o leitor consiga identificar como as partes se relacionam.
Ao revisar um período longo, procure localizar a ideia principal e observar se cada oração contribui para ela. Se houver várias explicações, ressalvas e exemplos acumulados, talvez seja melhor dividir a frase. Essa divisão não empobrece o texto: pode tornar a argumentação mais clara e ajudar cada informação a ocupar o lugar adequado.
Também é importante observar a pontuação. Um conectivo não resolve sozinho uma construção mal organizada. Se a relação entre as orações não estiver clara, vale reordenar a frase, substituir o marcador ou reformular o trecho. Ler em voz baixa pode ajudar a perceber onde a sequência fica truncada, embora a revisão deva também verificar o sentido e não apenas o ritmo.
Considere, por exemplo, a diferença entre acrescentar uma informação e apresentar uma consequência. “Além disso” introduz uma ideia adicional; “por isso” sinaliza uma consequência ou conclusão que decorre do que foi apresentado. Trocar um pelo outro sem avaliar o raciocínio pode alterar a relação entre as frases. A escolha precisa refletir o que o texto efetivamente afirma.
3. Referenciação e retomada de informações
À medida que o texto avança, pessoas, lugares, fatos e conceitos são apresentados e retomados. Esse processo, chamado de referenciação, evita que o texto repita continuamente os mesmos termos e ajuda a manter o assunto em foco. A retomada pode ocorrer por pronomes, advérbios, artigos, sinônimos, antônimos, termos mais específicos ou abrangentes e expressões que resumem uma ideia anterior.
Se uma redação apresenta um problema social pelo nome, por exemplo, pode retomá-lo depois por uma expressão equivalente, desde que o referente continue claro. O leitor precisa saber a que aquela palavra ou expressão se refere. Uma retomada muito vaga pode gerar dúvida, especialmente quando há mais de um elemento possível na frase anterior.
Pronomes como “isso”, “esse” e “essa” são úteis, mas precisam apontar para uma informação identificável. Se a frase anterior contém várias ideias, dizer apenas “isso demonstra” pode deixar incerto o que exatamente demonstra algo. Nesses casos, é possível nomear novamente o conceito central ou usar uma expressão que resuma o ponto relevante, como “essa dificuldade de acesso” ou “tal desigualdade”.
Sinônimos também devem ser escolhidos com cuidado. Palavras parecidas não são necessariamente intercambiáveis em todos os contextos. Uma substituição imprecisa pode mudar o significado ou tornar a referência confusa. Repetir um termo importante pode ser melhor do que variar o vocabulário à força. A clareza da retomada vale mais do que evitar toda e qualquer repetição.
Como escolher conectivos pelo sentido
Uma estratégia prática é identificar primeiro a relação lógica que se quer estabelecer e só depois escolher uma expressão. Em vez de perguntar “qual conectivo devo colocar aqui?”, pergunte “o que esta frase faz em relação à anterior?”. Ela acrescenta um argumento? Apresenta uma oposição? Explica uma causa? Mostra uma consequência? Traz um exemplo? Indica uma conclusão parcial?
Para acrescentar uma informação, expressões como “além disso” podem ser adequadas quando há, de fato, um ponto adicional. Para marcar oposição, “porém” e “entretanto” podem funcionar se a nova ideia contrastar com a anterior. Para indicar consequência, expressões como “por isso” podem ser pertinentes quando o resultado apresentado decorre do que foi explicado. A adequação, contudo, depende da frase completa.
Há ainda recursos para exemplificar, explicar, comparar ou organizar uma sequência temporal. Nem sempre é necessário anunciar cada movimento com uma fórmula. Um exemplo pode ser introduzido diretamente, e uma explicação pode surgir pela construção da própria frase. O objetivo não é tornar todos os passos visíveis por meio de marcadores, mas evitar que uma relação importante fique escondida ou ambígua.
Uma boa revisão pode substituir o conectivo por uma pergunta. Se o marcador escolhido for “portanto”, pergunte: “A ideia seguinte realmente decorre das anteriores?”. Se for “entretanto”, pergunte: “Existe uma oposição ou ressalva?”. Se for “além disso”, pergunte: “A frase acrescenta um ponto novo?”. Caso a resposta seja negativa, considere outro recurso ou retire a expressão.
Erros frequentes no uso de elementos coesivos
Repetir o mesmo marcador em excesso
Repetir uma palavra de ligação em todos os parágrafos pode deixar a redação previsível. A solução não é trocar cada ocorrência por um sinônimo apenas para variar. Antes, verifique se o marcador é necessário e se a relação se mantém. Quando a repetição for funcional e clara, não há motivo para buscar uma substituição que complique a frase. Quando for dispensável, retirar a palavra pode ser a melhor escolha.
Usar conectivos como enfeite
Expressões formais podem parecer sofisticadas, mas não tornam o argumento mais consistente por si mesmas. Inserir um marcador rebuscado sem compreender sua função pode comprometer a ligação entre as ideias. O vocabulário deve servir à comunicação. Uma expressão simples, usada corretamente, costuma ser mais eficaz do que uma fórmula complexa que não corresponde ao sentido pretendido.
Confundir adição com conclusão
“Além disso” costuma acrescentar uma informação, enquanto um marcador conclusivo sinaliza um fechamento ou uma consequência do raciocínio. Usar uma expressão de conclusão para apresentar apenas mais um argumento pode fazer parecer que a discussão terminou antes da hora. Da mesma forma, repetir marcadores de adição perto do fim pode impedir que a relação final fique clara.
Indicar oposição sem contraste
Palavras como “porém” e “entretanto” orientam o leitor a esperar algum tipo de contraste, ressalva ou quebra de expectativa. Se a frase seguinte continua a mesma linha de raciocínio, o marcador pode ser inadequado. Vale comparar diretamente as duas ideias: se elas não se opõem nem se limitam, talvez seja melhor usar uma expressão de adição, explicação ou simplesmente não incluir um conectivo.
Trocar clareza por frases longas
Conectar muitas orações em um único período pode gerar uma frase pesada, na qual o leitor perde de vista a ideia principal. A presença de várias conjunções não é prova de domínio da coesão. Em certos casos, dois períodos mais curtos organizam melhor a argumentação. A extensão deve ser uma escolha, não uma tentativa de demonstrar formalidade.
Retomar um termo de modo ambíguo
Uma referência mal construída pode deixar dúvidas sobre o sujeito ou o conceito mencionado. Se houver dois possíveis referentes, o pronome pode não ser suficiente. Nesse caso, repetir o substantivo ou usar uma expressão mais precisa evita que a leitura dependa de adivinhação. O texto deve permitir que o leitor recupere a informação sem interromper o raciocínio.
Um método de revisão em cinco etapas
Depois de terminar o rascunho, não revise apenas a ortografia. Reserve um momento para conferir como as ideias se conectam. Uma leitura voltada à coesão pode ser feita por etapas, o que ajuda a identificar problemas diferentes sem tentar corrigir tudo de uma vez.
- Identifique a função de cada parágrafo. Anote mentalmente se ele apresenta a posição central, desenvolve um argumento, explica uma causa, mostra uma consequência ou encaminha uma proposta. Essa verificação ajuda a perceber mudanças de assunto sem preparação.
- Observe as passagens entre parágrafos. Leia o final de um parágrafo junto com o começo do seguinte. Veja se há continuidade, contraste, aprofundamento ou outra relação clara. Se a passagem parecer abrupta, ajuste a ordem das ideias ou inclua uma transição realmente necessária.
- Confira os conectivos um a um. Pergunte qual relação cada palavra estabelece. Se o marcador anuncia uma oposição, adição ou consequência que não existe, troque-o por uma opção mais adequada ou retire-o.
- Revise períodos longos. Verifique se as orações estão organizadas e se a frase continua fácil de acompanhar. Divida o período quando isso ajudar a separar informações ou tornar explícita a ideia principal.
- Cheque as retomadas. Procure pronomes e expressões que apontam para informações anteriores. Confirme se o referente está claro e se a repetição de um termo importante seria mais precisa do que uma substituição vaga.
Se o tempo de revisão for curto, concentre-se nos trechos em que o raciocínio muda de direção ou em que aparecem muitos conectivos próximos. Leia também o texto sem parar em cada palavra de ligação: se a sequência parecer artificial, pode haver marcadores sobrando. Depois, retorne aos pontos em que uma relação importante talvez não tenha ficado explícita.
Como praticar sem depender de fórmulas prontas
Uma forma de treinar é escrever dois períodos sobre um mesmo tema e explicitar a relação entre eles de mais de uma maneira. Primeiro, tente uma construção com conectivo; depois, reorganize as frases para verificar se a ligação continua clara sem ele. O exercício ajuda a perceber que a coesão pode vir da estrutura e da escolha das informações, não apenas de uma palavra no início da frase.
Outra atividade útil é revisar um parágrafo próprio e classificar, em linguagem simples, a função de cada frase: “apresenta a ideia”, “explica”, “dá um exemplo”, “mostra uma consequência” ou “faz uma ressalva”. Se duas frases tiverem funções que não se relacionam, talvez seja preciso desenvolver a transição ou reorganizar o parágrafo. Se várias repetirem a mesma informação, pode ser melhor condensar.
Também é possível observar textos argumentativos que você lê e perguntar como cada parte se conecta. Não se trata de copiar frases ou modelos, mas de notar como um argumento é apresentado, aprofundado e retomado. A análise deve se concentrar no funcionamento: qual ideia aparece primeiro, o que vem depois e que relação lógica permite avançar.
Monte um repertório de conectivos por função, mas use-o como referência, não como lista obrigatória. Ter opções para indicar contraste, consequência, exemplificação ou adição pode ajudar a evitar repetições. Ainda assim, a escolha final deve ser feita após a leitura do trecho completo. Decorar expressões sem praticar o sentido que elas estabelecem tende a aumentar a chance de uso inadequado.
Coesão e argumentação caminham juntas
A coesão contribui para que o leitor acompanhe uma argumentação, mas não substitui a qualidade do raciocínio. Um texto pode estar cheio de conectivos e ainda não explicar por que uma afirmação sustenta a tese. Para que o argumento avance, cada informação precisa ter uma função: apresentar um ponto, justificá-lo, detalhá-lo ou relacioná-lo ao tema.
Por isso, durante o planejamento, vale organizar os argumentos antes de escolher as expressões que os conectarão. Quando o estudante sabe qual ideia pretende defender e como cada parte participa da discussão, fica mais fácil perceber se é necessário marcar uma relação explicitamente. Quando o raciocínio ainda está indefinido, existe o risco de usar conectivos para tentar esconder uma passagem que não foi desenvolvida.
Uma sequência clara pode reunir recursos diferentes: a organização dos parágrafos, a construção dos períodos, a escolha dos termos e a retomada cuidadosa de informações. Nenhum desses elementos precisa aparecer de maneira ostensiva. A boa leitura costuma ser um sinal de que as relações entre as partes foram construídas de forma compreensível, embora a revisão ainda seja necessária para corrigir ambiguidades e inadequações.
Checklist rápido antes de passar a redação a limpo
- Consigo identificar a ideia principal de cada parágrafo?
- O parágrafo seguinte dá continuidade, acrescenta um ponto ou apresenta uma mudança de perspectiva compreensível?
- Os conectivos usados correspondem à relação real entre as frases?
- Há marcadores repetidos que poderiam ser retirados sem perda de sentido?
- Os períodos longos continuam claros ou precisam ser divididos?
- Pronomes e expressões de retomada indicam com precisão a informação anterior?
- Usei uma palavra diferente apenas para evitar uma repetição necessária?
- O leitor consegue acompanhar o argumento sem precisar adivinhar a ligação entre as ideias?
Usar elementos coesivos com eficiência não significa acumular expressões formais, mas construir relações que façam sentido. Na preparação para o Enem, pratique a escrita e a revisão em conjunto: planeje o desenvolvimento, observe a função dos parágrafos, conecte as orações com clareza e confirme se cada retomada aponta para o referente correto. Assim, os conectivos deixam de ser enfeites e passam a cumprir sua função: ajudar a argumentação a avançar de maneira lógica e compreensível.




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